O Fumo

 




O tabaco, conhecido como matéria-prima do cigarro, foi o motivo da minha primeira experiência pueril nos tempos de seringal.

Eram cinco horas da manhã, quando a cerração ainda encobria o barranco e nem podíamos ver o rio. Vovô saía para sua rotina matinal, que era a produção de fumo para os seres não encantados expelirem fumaça pelas narinas. E eu, como não poderia deixar de ser, ficava ansioso para acompanhá-lo no cultivo de seu roçado. Era uma alegria pegar a canoa e remar pelo rio caudaloso do Tarauacá até o outro lado, onde ficava a plantação de tabaco.

Lá, vovô me ensinava muitas coisas da vida. Contava as estórias da floresta encantada e eu ficava todo arrepiado, pois eram estórias fantásticas e misteriosas, que me causavam medo. Mas vovô me acalmava:

— Filho, a floresta é nossa mãe. Os monstros da floresta são deuses que ela cria para que o homem mau não a destrua.

— Vovô, o que é o homem mau?

— Filho, são aqueles que não respeitam a beleza da vida e da natureza, e praticam coisas feias com os outros.

Avistando uma lagarta, perguntei a vovô:

— Lagarta também fuma?

— Não, meu filho. Lagarta é um inseto que gosta de comer a folha do tabaco; por isso, temos que retirá-las da plantação.

— Mas, vovô, ela é tão bonita. Gostei das suas cores.

— É, filho, mas quanto mais coloridas, mais suas picadas doem no corpo.

— Vovô, por que o senhor fuma?

— Aqui, meu filho, fumar é a única forma de salvação, de tantos insetos que nos mordem.

— O que é salvação, vovô?

— É uma forma de ser aceito no paraíso.

— O que é o paraíso?

— É o lugar onde o Todo-Poderoso tem sua morada.

— Vovô, eu queria fumar também para ir para o paraíso.

— Filho, você ainda não tem idade para ir para o Paraíso.

— Vovô, quando o senhor for, quero ir junto.

— Não, filho. Primeiro os mais velhos vão para preparar o caminho e a casa para os mais novos.

— Farei uma linda casinha para você.

— Vovô, não esqueça de construir com um quintal grande para plantarmos fumo e lagartas.

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